(236) – VINGANÇA CONTRA OS MORTOS

VINGANÇA CONTRA OS MORTOS

 

Na coleção CURIOSIDADES, Valmiro Rodrigues Vidal conta uma impressionante história de vingança. No volume sete, página 45, lemos a história verídica de Carlos II, rei da Inglaterra, que ao subir ao trono em 1.660, por influência do general Monk, exerceu impressionante vingança contra os que haviam decapitado seu pai, Carlos I.

O inimigo a quem visava era Olivier Cromwell, o protetor da Inglaterra, que exercia o poder como ditador. Ele havia morrido em 1.658, tendo sido enterrado na Abadia de Westminster. Segundo alguns autores, Carlos II fez desenterrar os cadáveres dos revolucionários e colocar num carro. Eram três: Cromwell, Ireton e Bradshaw, que tinham sido os seus mais encarniçados inimigos. Levou-os para Tyburn, lugar onde eram enforcados os criminosos. Os cadáveres foram aí pendurados nas forcas, onde ficaram o dia inteiro. Depois mandou retirá-los das árvores e decapitou-os, atirando em seguida os corpos num poço junto às forcas. As cabeças foram espetadas em lanças e colocadas em lugares elevados, oferecendo aos cidadãos sinistro espetáculo, testemunho expressivo dos sentimentos vingativos do monarca.

Esse tipo de vingança retrata o indescritível ódio que enchia o coração daquele rei. Foi, entretanto, vingança contra cadáveres putrefatos. Seria maior o ódio se o monarca mandasse matar os filhos dos defuntos, que não participaram do crime, cujas mães e parentes ficariam estarrecidos diante de tanta atrocidade, mas felizmente não ocorreu tal fato.

Na história de Israel, o povo de Jeová, aconteceram coisas mais monstruosas, pois Jeová, cheio de ódio e furor, não podendo se vingar no defunto que nada sente, se vingava nos filhos para que os parentes vivos, porém inocentes, sofressem a dor e a angústia que o morto deveria sofrer. Qual o sentimento de um ser que se apresentou como deus, e por ódio a alguém que matou por vingança, não satisfeito em matá-lo, estende a mão assassina sobre os filhos, para que mãe, irmãs e avós sofram a dor lancinante e pungente que desejava para o defunto?

O pior neste tipo de comportamento é que Jeová quebra a sua própria lei, que diz: “Os pais não morrerão pelos filhos, nem os filhos pelos pais; cada um morrerá pelo seu pecado” (Dt. 24:16). Como pode Jeová submeter o seu povo às mais terríveis maldições, se ele próprio não respeitou a lei que prescreveu? “Façam o que digo, mas não façam o que eu faço.” No capítulo das maldições, Jeová declarou: “E será que, assim como Jeová se deleitava em vós, em fazer-vos bem e multiplicar-vos, assim Jeová se deleitará em destruir-vos e consumir-vos; e desarraigados sereis da terra a que passais a possuir” (Dt. 28:63). Se Deus é amor, não pode se deleitar em destruir. Cada pessoa que morre sem salvação é mais um perdido, por quem o Pai enviou o seu Filho Jesus para morrer na cruz afim de salvá-lo. Deus deve sofrer pelos que se perdem, e não se deleitar em matar e destruir.

Saul pecou, e Jeová planejou sua morte através de uma feiticeira. Como Saul perguntasse a Jeová sobre a guerra contra os filisteus, que estavam acampados em Sunem, e Jeová nada respondesse, nem por sonhos, nem por Urim, e nem por profetas, Saul, desesperado, buscou uma feiticeira, em En-Dor (I Sm. 28:6-8). E a feiticeira profetizou, da parte de Jeová, a morte de Saul e seus filhos (I Sm. 28:19). O fato se concretizou alguns dias à frente, durante a peleja contra os filisteus. Os filisteus apertaram a batalha e mataram a Jônatas, a Abinadabe, e a Melquisua, filhos de Saul. Saul apertado pelos filisteus, e apavorado, pediu a seu pagem de armas que o matasse, para não ser morto pelos filisteus. O seu pagem por temor, não quis matá-lo. Saul, então, se lançou sobre a própria espada. O exército de Saul foi dizimado pelos filisteus. Cumpriu-se assim o oráculo da feiticeira de En-Dor. Ela declarou que quem estava falando era o espírito de Samuel, fato negado por Jesus na parábola do rico e do Lázaro (I Sm. 31:1-6; Lc. 16:22-26). O próprio Jeová declarou que, quando o profeta falasse, cumprindo-se a palavra, foi ele, Jeová quem falou pelo profeta (Dt. 18:20-22). Sendo assim, Jeová falou pela feiticeira.

Morto Saul e seus três filhos, passaram-se uns trinta anos. Nesse tempo todo, Jeová continuou curtindo ódio e nutrindo vingança contra o defunto. Mas defunto não sente nada. O próprio Jeová falou pela boca de Salomão: “Porque os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos não sabem coisa nenhuma, nem tão pouco eles têm jamais recompensa, mas a sua memória ficou entregue ao esquecimento” (Ec. 9:5). A morte fez cessar o mal e o pecado de Saul, mas a sanha vingativa de Jeová não cessa. Então, forjou Jeová, executar a vingança nos outros filhos de Saul para que as mães e irmãs padecessem incessantemente a aflição e a angústia que Saul deveria padecer, para deleite de Jeová, conforme Dt. 28:63. Deleitar-se no sofrimento de inocentes, no lugar dos culpados, é um deleite tenebroso. No capítulo 21 do livro de II Samuel, durante o reinado de Davi, temos essa infeliz narrativa que deslustra a justiça de Jeová. O fato deu-se da seguinte maneira: Houve uma fome de três anos, nos dias de Davi, de ano em ano. Davi consultou a Jeová, que lhe disse: “É por causa da casa sanguinária de Saul, que matou os gibeonitas.”  Davi chamou os gibeonitas, que confirmaram a perseguição atroz de Saul. Os gibeonitas pediram ao rei Davi que lhes desse sete filhos de Saul, para os enforcar a Jeová. Davi buscou os sete. Os gibeonitas enforcaram-nos, e a ira de Jeová se aplacou contra o defunto (II Sm. 21:1-14). O texto destaca Rizpa, filha de Aia, que tomou um pano de silício, e estendeu sobre uma pedra, e lá ficou em prantos dia e noite. De dia espantava as aves, e de noite espantava os animais, até que Davi mandasse recolher os ossos de Saul e seus filhos, e os sepultassem na cova de Cis, pai de Saul (II Sm. 21:10-14). Este caso não é o único do Velho Testamento. Sobre muitos outros Jeová executou sua terrível vingança contra defuntos.

  1. Gideão pecou fabricando um ídolo. Isto irritou Jeová, que depois da sua morte executou a vingança, forjando a morte de seus setenta filhos (Jz 8:22-31; 9:1-5).
  2. Jeroboão, que reinou sobre Israel, mandou fazer dois ídolos. Um colocou em Betel, o outro em Dã(I Rs. 12:26-30). Depois da morte de Jeroboão, quando reinava seu filho Nadabe, Jeová executou a sua mortal vingança sobre a descendência (I Rs. 14:20; 15:25-29).
  3. Baasa, que destruiu a casa de Jeroboão, também pecou. Jeová, então coordenou a morte de toda casa de Baasa, após a sua morte (I Rs. 15:33-34). Morreu Baasa (I Rs. 16:6-11).
  4. Acabe, rei de Israel, cometeu grandes abominações, incentivado por sua mulher Jezabel. Elias, o tisbita, anunciou a vingança de Jeová. Acabe se humilhou diante de Jeová (I Rs. 21). Jeová, depois da sua morte, executou a vingança contra a casa de Acabe, isto é, contra inocentes (II Rs. 10:1-11).

Se Saul, Gideão, Jeroboão, Baasa, e Acabe vivessem depois de Cristo, seus descendentes não morreriam, por causa do amor do Pai, conforme Jo. 3:16-17.

 

Autoria: PASTOR OLAVO SILVEIRA PEREIRA

ABIP – ASSOCIAÇÃO BÍBLICA INTERNACIONAL DE PESQUISA

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