(361) – DUAS HISTÓRIAS

DUAS HISTÓRIAS 1

         Em I Co. 10:6 está escrito: “Estas coisas foram-nos feitas em figura, para que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram”. É preciso notar que não está escrito: Todas as coisas foram-nos feitas em figura, mas, Estas coisas. Isto quer dizer que não são todas as coisas que são figuras. Quais então, são as figuras que Paulo está focalizando no texto citado? São elas:

1. A primeira é: “Não vos façais, pois, idólatras como alguns deles, conforme está escrito”. Isto aconteceu quando Moisés subiu ao monte Sinai para receber a lei. “O povo assentou-se a comer e a beber, e levantou-se para folgar” (I Co. 10:7). E também o povo aderiu a idolatria fazendo o bezerro de ouro (Ex. 32:1-6).

2. A segunda figura está ligada à prostituição, quando o povo de Israel entrou às filhas dos moabitas no pecado de Baal Peor, aconselhados por Balaão, o profeta louco. E por causa disso Jeová matou vinte três mil com uma praga (Nm. 25:1- 9, 31:16; I Co. 10:8). Pedro se refere a esse assunto em II Pd. 2:12-16.

3. “Não tentemos a Cristo, como alguns deles também tentaram, e pereceram pelas serpentes”. Esta figura está em Nm. 21:4-9, quando o povo murmurou contra deus e contra Moisés, desprezando o maná, e chamando-o de pão vil. E por esta causa Jeová mandou entre o povo serpentes ardentes, que morderam o povo; e muitos de Israel morreram. Qual a ligação com Jesus Cristo? No começo da Igreja, muitos não se conformaram com a vida de pobreza, como Ananias e Safira, envenenados pela serpente, isto é, Satanás, e morreram (At. 5:1-11). Por aqui vemos que não foi Pedro quem os matou, nem Jesus, nem o Espírito Santo, que foi o tentado, mas Satanás, que anda ao redor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar (I Pd. 5:8). Paulo focalizou a figura em I Co. 10:9.

4. “E não murmureis, como também alguns deles murmuraram, e pereceram pelo destruidor” (I Co. 10:10).Estes poucos murmuradores, que pereceram pelo destruidor, foram dez, dos doze varões, enviados à expiar a terra de Canaã, pois dois deles não murmuraram, que foram Josué e Calebe (Nm. 13:1-16). Os outros dez infamaram a terra (Nm. 13:32-33). Estes dez morreram de uma praga enviada por Jeová, que Paulo chamou “O DESTRUIDOR”. Mas quem os matou foi Jeová (Nm. 14:36-37).

Paulo termina o texto, dizendo: “Tudo isto lhes sobreveio como figuras, e estão escritas para aviso nosso” (I Co. 10:11).

Neste estudo omitimos o comentário dos primeiros cinco versos de I Co. 10, por terem outra aplicação espiritual.

5. Como Paulo falou: “Estas coisas foram-nos feitas em figura”, muitos estudiosos entendem que tudo é figura, e extravasam. Analisemos o cativeiro egípcio, se é figura ou não: Baseados na interpretação de que o Egito é figura do mundo, Faraó é figura de Satanás; o cativeiro egípcio é figura do cativeiro humano debaixo da tirania do pecado; os empecilhos de Faraó para reter o povo são as armadilhas de Satã para manter as pessoas presas ao pecado.

A comparação é muito bonita, mas não é completa. Se Faraó é figura de Satanás, onde está o primogênito de Satã? Jeová matando o primogênito de Faraó, que é figura do diabo, salvou Israel do Egito (Ex. 4:23, 12:29).

A salvação dos cristãos é diferente da salvação de Israel. Jesus, o unigênito do Pai, se deu a si mesmo ao adversário para nos salvar (Gl. 1:4; Jo. 10:17-18). Jeová deu o Egito como preço do resgate de Israel (Is. 43:3). Lá no Egito foi a ira e a vingança de deus, que fazendo chover pragas, pestes e mortes, produziram uma salvação efêmera. Aqui, na Igreja, é o amor infinito, o perdão e a graça de Deus, que salvam para sempre. Lá, os que foram salvos, morreram depois no deserto (Jd. 5). Aqui os que são salvos tem a vida eterna (Jo. 3:36). Lá, os salvos da corrupção do Egito (Ez. 23:1-4), foram levados para Canaã, terra dos cananeus sodomitas (Gn. 10:19-20). E Jeová os deixou na terra de Canaã para ensinar o seu povo (Jz. 3:1-3). Aqui na Igreja, os salvos pela fé, por amor a Cristo saem do mundo cantando salmos de alegria, e em espírito se mudam antecipadamente para o reino dos céus. Paulo diz: “Dando graças ao Pai que nos fez idôneos para participar da herança dos santos na luz; o qual nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do seu amor” (Cl. 1:12-13). E diz mais:“Estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos), e nos ressuscitou juntamente com ele e nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus” (Ef. 2:5-6).Estar nos lugares celestiais não é um fato futuro. E Paulo continua: “Portanto, se já ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à destra de Deus. Pensai nas que são de cima, e não nas que são da terra; porque já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então também vós vos manifestareis com ele em glória” (Cl. 3:1- 4). O texto sugere que o corpo físico do cristão está  na terra, mas sua alma está nos lugares celestiais arrebatada pela paixão espiritual. O apóstolo Paulo estava tão absorvido pelas coisas de Deus, e a obra de Jesus, que declarou: “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim” (Gl. 2:20). O reino de Deus, o crescimento das Igrejas, o atendimento de todas as Igrejas estabelecidas pelo próprio Paulo nas suas viagens; as revelações dos mistérios e das alegorias do Velho Testamento, o amor pelas almas perdidas, as curas, os prodígios e os arrebatamentos, de tal modo se fundiram na mente e no coração de Paulo, que ele desligou da vida deste mundo, que declarou: “Para mim o viver é Cristo, e o morrer é ganho. Mas, se o viver na carne me der fruto da minha obra, não sei então o que deva escolher. Mas de ambos os lados estou em aperto, tendo o desejo de partir, e estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor. Mas julgo mais necessário, por amor de vós, ficar na carne” (Fp. 1:21-24).

A história da libertação de Israel do Egito, pela mão de Moisés, enviado por Jeová, apresenta uma realidade completamente diferente. Estevão, o primeiro mártir, revela essa verdade, dizendo: “Este (Moisés) é o que esteve entre a congregação no deserto, com o anjo que lhe falava no monte Sinai, e com nossos pais, o qual recebeu palavras de vida para no-las dar. Ao qual nossos pais não quiseram obedecer, antes o rejeitaram, e em seu coração se tornaram ao Egito” (At. 7:38-39).

A figura é forçada, pois não existe. São duas histórias diferentes, duas salvações também diferentes, com duas realidades diferentes. Lá, foram salvos sem serem lavados do pecado, portanto foram salvos permanecendo imundos. Aqui, na Igreja, os que são salvos, são lavados dos pecados, por isso Ananias falou a Paulo no terceiro dia depois da conversão: “E agora por que te deténs? Levanta-te, e batiza-te, e lava os teus pecados, invocando o nome do Senhor Jesus” (At. 22:16). Lá, os que foram salvos, eram mortos salvos, pois Paulo diz: “Porque, se pela ofensa de um só, a morte reinou por esse, muito mais os que receberam abundância da graça, e do dom da justiça, reinarão em vida por um só, Jesus Cristo” (Rm. 5:17). Aqui, o salvo, ao crer, passa da morte para a vida (Jo. 5:24).

Aplicar figuras onde não as há, os resultados não serão bons. Concluímos que a salvação efetuada por Jesus Cristo é tão transcendente, tão sobrenatural, tão gloriosa e celestial, que nada poderia se fazer na terra, para ser sua figura.

 

Autoria: Pastor Olavo Silveira Pereira

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